Química

Luminol com Nióbio

Foi no laboratório da Universidade Federal do Rio que os pesquisadores desenvolveram o luminol brasileiro, um produto usado para descobrir manchas de sangue em qualquer superfície, mesmo as que foram lavadas. A reação acontece quando as moléculas do luminol entram em contato com o sangue. As partículas de ferro existentes na hemoglobina, uma proteína do sangue, se acendem como se fosse vaga-lumes. 

O luminol nacional é feito de maneira diferente do que é fabricado nos Estados Unidos. Lá, o produto é submetido a altas pressões e temperaturas. Aqui no Brasil, a produção é quase artesanal, com a utilização do nióbio, um metal abundante no país. E isso reduz o custo em 90%. Enquanto o luminol importado custa R$ 3 mil, o nacional sai por R$ 300. A grande diferença em relação ao luminol importado é que o produto americano precisa de radiação ultravioleta para localizar os vestígios de sangue. Então, depois e aplicar o luminol, os técnicos usam um equipamento para varrer e encontrar o sangue. O luminol brasileiro não precisa disso. Basta apenas que o ambiente esteja escuro. Outra vantagem é que o luminol nacional não destrói o DNA existente na mancha de sangue. 

Nosso objetivo é ampliar o tempo de reação do luminol. Para isso, temos de achar outros derivados oxigenados. Conseguimos produzir o reagente para a polícia do Estado do Rio, mas, com essa verba, poderemos atender à demanda de todo o País, disse o professor Carlos Lopes, coordenador do Laboratório de Síntese e Análise de Produtos Estratégicos, vinculado ao Departamento de Química da UFRJ. O reagente é produzido desde 2001 pela UFRJ, mas não industrialmente. 

Outra vantagem é que o Luminol brasileiro já é distribuído em kits com dois borrifadores. Características originais do produto, como a manutenção do material genético do sangue encontrado, continuam. “A reação do produto não impede que o DNA possa ser analisado posteriormente”, conta Letícia Gomes Ferreira, 23 anos, aluna do 4º período que participou da descoberta junto com a pós-doutoranda Jacqueline Alves da Silva. O reagente já é fornecido gratuitamente aos peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli. A intenção é que, num futuro próximo, o Instituto de Química passe produzir o Luminol em escala industrial e a comercializar o produto, até para fincanciar suas próprias pesquisas. O projeto que resultou na versão nacional da substância contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e também da reitoria da UFRJ. 

Nossos maiores clientes são a polícia e os peritos criminais. Sempre achei que os policiais deveriam ter uma abordagem científica, mecanismos de inteligência e o luminol é uma grande contribuição, disse o professor. O produto funciona em ambientes escuros e, diferentemente da substância feita no exterior, o luminol brasileiro não necessita de eletricidade nem de raios ultravioleta para reagir. A solução líquida é borrifada no local do crime. Em contato com a hemoglobina, o reagente libera nitrogênio e a chamada porção fitálica, pontos azuis reveladores da presença de sangue. 

Quando o luminol é borrifado sobre uma superfície onde há partículas de sangue, o líquido reage com a hemoglobina e produz um brilho verde-azulado, mesmo que o local tenha sido exaustivamente lavado. Mas para que essa reação seja visível, é preciso iluminar o ambiente com luz ultravioleta. O produto nacional já apresenta uma boa vantagem sobre o importado A formulação desenvolvida no Laboratório de Síntese e Análise de Produtos Estratégicos (Lasape) do Instituto de Química da UFRJ dispensa a luz ultravioleta para revelar a mancha de sangue, funcionando no ambiente escuro. “No Brasil, muitos crimes ocorrem em lugares de difícil acesso, como morros e matagais. Isso dificulta a utilização da luz ultravioleta, porque não há fonte de energia no local. Nosso produto foi criado para atender à polícia brasileira. Os próprios policiais fizeram essa observação”, conta o coordenador do grupo que desenvolveu o luminol nacional, Cláudio Cerqueira Lopes.

A sensibilidade do luminol brasileiro é da proporção de um em 1 bilhão. Isso significa que ele é capaz de revelar uma partícula de sangue dispersa entre 999 milhões de outras partículas, como as de água. A substância importada, por sua vez, atinge no máximo a relação de um em 1 milhão. Outra vantagem da versão nacional é seu baixo custo. O processo de síntese desenvolvido dispensa as condições de alta temperatura e pressão usados no sistema convencional, além de utilizar componentes disponíveis no país. Uma avaliação feita há dois anos mostrou que 333 ml da formulação brasileira sairia por R$ 200, enquanto que a importada custava R$ 3 mil. De acordo com Lopes, hoje, esta diferença seria muito maior, o que impede a utilização do reagente pela polícia brasileira. O pesquisador acredita que, com a formulação do Lasape, será possível difundir o uso da substância no país. “Os insumos são produzidos pela indústria petroquímica e metalúrgica, que estão presentes no Brasil. Por isso, saem barato para nós. O principal componente é o pentacloreto de nióbio, fornecido pela Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia a um preço irrisório. O país é o maior produtor de nióbio do mundo”, explica o pesquisador. 

O produto é comercializado pela Fundação Universitária José Bonifácio, da UFRJ. O dinheiro obtido com a venda é investido na produção e na pesquisa sobre o reagente. O projeto de desenvolvimento da substância foi realizado com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), mas para a próxima etapa, enfrenta a falta de recursos. “Precisamos de verbas para desenvolver um produto extremamente útil à sociedade brasileira. Hoje, já se sabe que uma polícia eficiente precisa ser científica, ter à mão instrumentos que facilitem a investigação. Mas alguns não reconhecem isso”, lamenta Lopes. Os pesquisadores já entraram com pedido de patente da nova forma de síntese e formulação no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O grupo também estuda aplicações do seu reagente na medicina, como no diagnóstico do câncer do aparelho digestivo e na avaliação do teor de álcool e vitamina C em bebidas. Depois de criar uma formulação mais prática, eficaz e barata do composto, o grupo trabalha no prolongamento do efeito luminescente produzido pela substância, o qual dura cerca de 30 segundos. Lopes e sua equipe pretendem aumentar esse tempo para, pelo menos, um minuto, através da síntese de novos derivados oxigenados do luminol.

Fonte: 
http://www.universiabrasil.net/portada/actualidad/noticia_actualidad.jsp?noticia=52710
 
http://jornalismo.globo.com/Jornalismo/JN/0,,AA824796-3586,00.html
 
http://www.sbq.org.br/publicacoes/beletronico/bienio0204/boletim441.htm
http://odia.ig.com.br/geral/ge121116.htm
 
acesso em outubro de 2004
 
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